Correr riscos não implica necessariamente sofrer danos

O Facebook conta com 13 anos de existência e estamos todos cada vez mais familiarizados com a sua utilização. Ainda que sejam por vezes noticiadas situações que se iniciam online e que desencadeiam comportamentos de risco offline (por exemplo o assédio online/violação offline, as situações de happy slapping) estas são pouco frequentes se se tiver em conta o rácio entre número de utilizadores e situações que conduzem a danos. Contudo, sempre que surge um caso, os media acabam por acentuá-lo, enquanto as oportunidades que diariamente são geradas pelo Facebook são remetidas para segundo plano. Daí que, no geral, as pessoas (sobretudo os adultos que não estão tão a par desta realidade) partilhem a ideia de que as redes sociais são um lugar perigoso, onde pouco de bom acontece. De facto, existem riscos, mas estes não se repercutem necessariamente em danos, podendo inclusivamente ser transformados em oportunidades caso o jovem tenha adquirido competências nesse sentido. Assim sendo, à semelhança do que se passa no nosso quotidiano offline, é preciso arriscar para se colherem alguns frutos, pelo que os riscos online vivem paredes-meias com as oportunidades.  Ou seja, só por via da exposição ao risco é que os utilizadores de redes sociais poderão usufruir das oportunidades geradas por estas redes. Por exemplo, a autorrevelação, tanto pode ser um risco, como uma oportunidade, estando o risco relacionado com a revelação de dados sobre o próprio que conduzam, por exemplo, a interações hostis, e a oportunidade associada à obtenção  de apoio socio-emocional ou o aumento da rede de relacionamentos.

O contato com desconhecidos e a marcação de encontros presenciais, caso estes estejam movidos por más intenções, pode conduzir a riscos de assédio e/ou de cibersexting . Contudo, mais uma vez, não há necessariamente uma relação entre o contato com desconhecidos e o surgimento de danos !

Evitar/proibir a utilização, não é solução nem evita o surgimento de riscos. Os estudos mostram que uma utilização mais frequente pode constituir um fator de proteção já que deste modo é adquirido um maior conhecimento das redes sociais e  o consequente desenvolvimento de estratégias mais eficazes tanto para a protecção dos riscos que surjam online, como para a conversão dos  riscos em oportunidades.  Cardoso, Espanha e Lapa (2009, p. 42) corroboram essa opinião: “os jovens ao utilizarem mais a internet ganham experiência e competências para aceder aos recursos da internet, e vão crescendo e aprendendo, muitas vezes sem acompanhamento, sobre as oportunidades e riscos associados a essa utilização”.

Importa então, e cada vez mais (como referiu Levy, 1999) explorar as potencialidades mais positivas das redes sociais como meio de socialização, com finalidades lúdicas, económicas ou intelectuais. Além disso, estes espaços virtuais desempenham cada vez mais um importante papel no desenvolvimento psicossocial dos jovens deste século, aspeto este que importa aprofundar em termos de conhecimento científico.

(este texto teve como base as conclusões da minha tese de doutoramento em Psicologia da Educação : “Estar Online, Viver Offline  – Hábitos de utilização, ajustamento psicossocial, riscos/oportunidades online e comportamentos de risco offline/bem-estar, de jovens utilizadores do Facebook da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e de Macau”, Janeiro de 2018)

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