Acabem com a televisão !

O espaço privado passou, há alguns anos, a ser do domínio público, fruto de um novo tipo de programas de televisão. Mais recentemente o foco passou a ser a exposição de um sentimento muito comum na sociedade actual – a solidão. Ficámos todos a saber que a solidão é um fenómeno transversal, que atinge todas as idades, orientações sexuais, profissões.. Mais do que isso, a solidão dói e muita gente não aguenta o sofrimento de estar só. A solidão passou a ter um rosto que se afasta muito do estereótipo que todos nós, inconscientemente, criámos. Não é a mulher ou o homem de meia idade, em baixo de forma e pouco atraente, mas pode ser a mulher/homem bonito, bem falante e fisicamente atraente.

Mas, como é possível que estas pessoas estejam sozinhas e, mais do que isso, recorram a um programa de tv para arranjar alguém ? Esta é uma pergunta que a todos intriga e, mais do que isso, a todos angustia. Afinal de contas, todos nós nos revemos em algumas destas pessoas e isso tocam-nos fundo.  A diferença  é que elas se estão a expor … a mostrar uma fragilidade que é fruto de muitos fatores, de entre os quais a proliferação das redes sociais. Está mais do que provado que nunca estivemos tão “virtualmente” acompanhados e tão “realmente” sós ! Daí que a existência de programas de dates surjam cada vez mais. Seria impensável existirem há 20 anos, uma vez que a sociedade era muito diferente. Contudo, como tudo o que mostra fragilidades, gera polémicas e críticas ferozes. O que pretendem os opositores ? Que se acabe com este tipo de programas, com base no argumento de que transmitem valores e modelos pouco positivos para as crianças e jovens. Então, eu sugiro que …

Acabem com os anúncios porque incentivam o consumismo;


Acabem com os telejornais porque dessensibilizam-nos para as misérias do mundo;


Acabem com as telenovelas cujo enredo roda em torno de traições, mortes , infidelidades;


Acabem com os filmes eróticos e os pornográficos porque podem ter um impacto negativo na sexualidade de quem os vê;


Acabem com os jogos online porque há o risco de aumentar a agressividade para quem os joga;


Acabem com as redes sociais porque abrem caminho para o assédio online e outros riscos;


Acabem com os concursos de talentos onde os excluídos se sentem humilhados …

Acabe-se com tudo isto .

Ou seja, acabe-se com tudo o que consideramos negativo e, já agora, coloquem as novas gerações a viver numa redoma, não as expondo à realidade.

Não, o caminho não é por aí , não é acabar com tudo o que não concordamos.

O caminho é EDUCAR !

Não é armarmo-nos em “Diáconos remédios”, cuja única função é criticar e, se possível, proibir. É urgente educar os mais novos no sentido de se respeitarem e respeitarem os outros, sejam de que raça, credo, ou género forem. Desenvolver-lhes a capacidade de empatia para que se consigam colocar-se no lugar dos outros e não os humilhem, ou maltratem. Ensinar-lhes a gerirem a frustração, o que passa por não lhes dar tudo o que pedem. Choram ? Fazem birra ? Qual é o problema ? As crianças precisam ser ensinadas a lidar com a frustração e só sentindo-a na pele é que o vão conseguir. Fazer-lhes todas as vontades resolve momentaneamente a situação, mas no futuro não as ajuda a encarar as derrotas e a dar “a volta por cima” mesmo perante uma rejeição amorosa. Uma criança cujos pais não lhe souberam impor limites, uma vez adulto não saberá aguentar a frustração do término de um namoro e com mais facilidade irá ter reações de agressividade. Ou seja, o problema da violência doméstica, não está nos programas de televisão  mas sim na educação que estamos a dar às crianças.

É preciso educar as meninas para que cresçam com uma boa autoestima. Mostrar-lhes que são capazes de mudar o mundo! Dar-lhes a conhecer modelos de sucesso, como a paquistanesa Malala, ou a  sueca Greta Thunberg, que sendo ainda muito novinhas, estão a marcar a diferença. Não as deixar sozinhas frente aos ecrãs a elogiar e a interiorizar modelos de “sucesso virtual” como as irmãs Kardashians, ou outras do género. Não educar para a futilidade, mas sim instruí-las no sentido de formarem um espirito critico que lhes permita “separar o trigo do joio”, quer se trate de programas de televisão, conteúdos de revistas, de internet ou de outro tipo qualquer.

O problema não está na televisão, nem os programas que são exibidos. O problema está na forma como algumas crianças e jovens estão a ser educados, sem qualquer supervisão por parte dos Pais. Os canais de televisão fazem o seu papel, cabe aos educadores fazer o deles !

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